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Agronegócio: “É possível produzir com menos agrotóxicos”

Data da Noticia 25/06/2019
Estudos científicos feitos em Erechim na UFFS mostram que é possível reduzir o uso dos agrotóxicos sem prejudicar a produção das culturas. Trabalho do pesquisador Leandro Galon foi, recentemente, reconhecido internacionalmente.

Esse é o resultado de um estudo realizado em Erechim (RS) pelo agrônomo, professor, pesquisador e pós-doutor, Leandro Galon, da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS – Campus Erechim). Recentemente, Galon publicou um trabalho de pesquisa numa revista internacional que ficou entre os 20 mais acessados do mundo. A pesquisa comprova que é possível reduzir as doses de agrotóxicos recomendadas em bula para plantas daninhas.       

“O experimento usou vários herbicidas, em alguns casos foi utilizado a metade da dose, e conseguimos o mesmo efeito de controle da planta daninha”, explica. O detalhe, observa Galon, com menor custo ao produtor, diminuição da contaminação e impacto ambiental, sem afetar a produção da cultura. “Produzindo o que tem que se produzir”, diz.

Investimentos em pesquisa

Um ponto importante da pesquisa é que ela foi feita no campus da UFFS em Erechim, na área experimental da universidade. O pesquisador ressalta que a constatação da redução do uso de agrotóxicos nas lavouras só é uma realidade devido ao fato de se investir em pesquisas em universidades e órgãos públicos. “A empresa vendedora de agrotóxico não vai fazer isso, ela quer vender porque esse é o negócio dela”, observa.

Culturas

Galon comenta que na pesquisa realizada com a cultura do feijão reduziu a dose de bula de dois litros por hectare para 1,2 litros por hectare. “E deu o mesmo resultado, com menor contaminação do ambiente, do produto e redução de resíduos”, afirma.  

O pesquisador cita o exemplo também de um trabalho realizado com a cultura da cana de açúcar, quando estava no pós-doutorado, em que houve redução de dose de 2 litros por hectare para 1,6 litros por hectares na aplicação. “Se pensar em oito milhões de hectares, reduzir 400 ml é muita coisa, tanto em reflexos ambientais quanto em recursos financeiros”, diz.

Como reduzir os agrotóxicos

O pesquisador afirma que é possível reduzir a dose e o uso de agrotóxicos desde que o produtor adote práticas de manejo na lavoura e tecnologias de aplicação dos agroquímicos. Conforme Galon, o produtor precisa trabalhar com cobertura de solo, palhadas de inverno, que podem ser de aveia e ervilhaca, ter cuidados e tecnologia na aplicação dos agroquímicos como equipamentos bem calibrados, pontas de pulverização adequadas, respeitando as condições do ambiente, por exemplo, estar atento a umidade relativa e temperatura.

Segundo o pesquisador, tendo cuidado com o manejo, usando tecnologia na aplicação, respeitando as condições ambientais, o produtor vai contribuir para evitar a deriva, deixando de afetar outras culturas “não alvo e os vizinhos”.

Efeitos práticos

Galon afirma que entre os efeitos práticos da redução do uso de agroquímicos está a economia de dinheiro e um menor impacto ambiental, e uma cultura menos contaminada. O pesquisador ressalta que a redução de agrotóxico se aplica a todas as culturas seja ela de soja, cana ou algodão. “O que se quiser”, diz. Ele ressalta que a diminuição no uso de agrotóxicos tem efeitos positivos tanto para o ser humano, como para a natureza e a produção de alimentos. “Para a sociedade como um todo”, diz.

Cultura da soja

Conforme Galon, há um trabalho em andamento sobre a cultura da soja, que está em fase de tabulação dos dados. Ele estima que possa chegar a 35% a redução de agroquímicos na lavoura da soja. “O que é bastante”, afirma.  

O pesquisador observa que está nessa linha de pesquisa desde o seu pós-doutorado em 2009. “Procurei ir para esse lado já que não se pode extinguir os agrotóxicos, é difícil o produtor produzir sem ele, mas pelo menos vamos reduzir a quantidade, o custo e a aplicação no ambiente”, afirma. E, acrescenta, “é possível produzir com menos agroquímicos, isso é uma realidade”.

Informações ao produtor  

O pesquisador afirma que para isso ocorrer o produtor precisa de instruções, receber informações que não sejam dadas pela iniciativa privada, por quem vende os agrotóxicos. “Hoje, quem dá assistência técnica é o vendedor, o dono da agropecuária”, afirma.

Outro ponto importante é a valorização do agrônomo. “Tem colega que ganha R$ 900 de salário e o resto é comissão, ele vai querer aplicar mais porque está desvalorizado e tem que sustentar a família dele também”, comenta.  

Segundo Galon, a redução dos agrotóxicos passa por muitos fatores, desde política pública de conscientização, valorização do profissional até a desvinculação da venda do agrotóxico e a receita.  

2,4 – D

Com relação ao herbicida 2,4 – D, o pesquisador sempre diz nas suas aulas de plantas daninhas e herbicidologia para evitar esse produto. “Porque tem várias alternativas, herbicidas com características próximas e que não tem volatilidade. Mas não são usados porque são mais caros que o 2,4 – D”, afirma.

Gotas grandes

Uma questão importante para quem utiliza o 2,4 – D é considerar a melhor época de se aplicar, trabalhar com o tamanho de gotas grandes na aplicação porque volatiliza menos.

Ele enfatiza que o produtor não usa a gota grande porque precisa aplicar mais água na lavoura, ao invés de 100 litros por hectares vai ter que usar de 150 litros a 200 litros por hectare. “Isso gasta mais tempo para abastecer o pulverizador, mais diesel, enfim, para economia de tempo e combustível”, observa.

No entanto, Galon ressalta que o recomendado é usar a gota grande no pulverizador e um volume de calda maior. “Isso fará bem para ele, para aplicação, porque não vai dar o efeito na uva do vizinho, na hortaliça, como já tem vários casos no RS”, afirma.

Ele se preocupa muito com o 2,4 – D porque está chegando uma soja resistente ao produto o que pode causar problemas na lavoura que não for resistente em áreas próximas. “Se eu uso e você não usa vai dar problema”, diz.  

Mudar o modelo produtivo   

Galon ressalta que continuar seguindo o atual modelo de agricultura não tem um futuro muito promissor. “Daqui cinco anos vamos perder todas as ferramentas químicas”, diz.

Solução   

Segundo o pesquisador, a solução é fazer a rotação de cultura, de produtos, nem sempre usar o 2,4 – D, glifosato, principalmente, ter diferentes mecanismos de ação que controlem as plantas daninhas. “Não cair na armadilha de ter plantas resistentes”, afirma.

De acordo com Galon, a rotação de cultura é muito eficiente, mais do que o produto químico. “Tenho trabalhado desde 2012 com rotação de cultura e sistemas de cultivos na área experimental da universidade e temos encontrado resultados maravilhosos, diminuição do banco de sementes de planta daninhas e espécies”, observa.

Ele enfatiza que o grande produtor também pode fazer a rotação de cultura, por exemplo, plantando na sua área 20% de milho e 80% de soja. No ano seguinte, planta soja nos 20% do milho e mais 30% nos 80% de soja. “Não precisa sair de toda a soja, faz por percentuais, 20%, 30%, 40%, mas o mais importante é que faça a rotação”, afirma. Ele acrescenta que o maior problema de hoje para manejar a planta daninha é o monocultivo.

  • Autor: Ígor Dalla Rosa Müller/Jornal Bom Dia
  • Imagens: Ígor Dalla Rosa Müller/Jornal Bom Dia

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