Agora: Show da Tarde Com: Rosana Dallagnol Agora: Show da Tarde Com: Rosana Dallagnol

Central de Recados

Envie-nos seu recado ou peça sua música aqui!
Seu nome deve conter apenas letras!

‘Negar o passado pode resultar na repetição dos mesmos erros’

Data da Noticia 27/04/2021
Família Asturian, de Viadutos - um dos poucos núcleos de descendentes de armênios que vive no RS -, repercute o reconhecimento do presidente norte-americano, Joe Biden, ao genocídio armênio.

- O reconhecimento e a utilização do termo genocídio por parte do presidente Joe Biden é um grande passo em direção à justiça e à verdade. A manifestação da maior potência geopolítica do globo representa apoio fundamental à causa armênia.

É dessa forma que o servidor público aposentado, Adilson Asturian, e seus filhos, o mestre em Letras, Alan Asturian, e o doutor em História e professor do Instituto Federal Farroupilha/campus Frederico Westphalen, Marcos Jovino Asturian, avaliam a repercussão da fala do presidente dos EUA, que reconheceu no sábado, 24, a ação liderada pelo Império Otomano contra a minoria armênia, entre de 1915 e 1920, como um movimento sistemático com a finalidade de extermínio daquele grupo étnico.

Em entrevista ao Bom Dia, os Asturian - uma das poucas famílias de armênios que mora no RS - falam de seu passado, avaliam o presente e projetam um futuro marcado por incertezas diante do agravamento de discursos de ódio e que buscam negar a história. Confira:

O que representa para o povo armênio a declaração do presidente Joe Biden, reconhecendo como genocídio a ação do Império Otomano contra a população armênia, iniciada em 1915 e que fez cerca de 1,5 milhão de vítimas?

Os armênios, seus descendentes e todo ser humano movido por justiça e pela busca da verdade histórica lutam há 106 anos pelo reconhecimento do Genocídio Armênio perpetrado pelo Império Turco Otomano (atual Turquia). O reconhecimento e, por consequente, a utilização do termo genocídio por parte do presidente dos EUA, Joe Biden, é um grande passo em direção à justiça e à verdade. A manifestação de reconhecimento da maior potência geopolítica do globo representa um apoio fundamental à causa armênia.

Como a família Asturian foi impactada pelo genocídio? De que forma se deu a chegada dos primeiros Asturian a Capoerê, no interior do RS?

Antes mesmo de 1915, ano que marca o início do Genocídio Armênio, a população armênia – minoria étnica e religiosa sob domínio do Império Turco Otomano – já sofria perseguições. No Sultanato de Abdul-Hamid II ocorriam massacres e emigração. Pessoas eram cruelmente assassinadas, casas eram invadidas e pilhadas; os armênios sofriam os mais variados tipos de abuso. Nesse contexto, Martins e Marcos Asturian partiram de suas comunidades e vieram ao Brasil, se estabelecendo em Capoerê (atual distrito de Erechim). As datas de partida e chegada são desconhecidas. O motivo da escolha pelo Brasil, e em específico a região norte do RS, também é desconhecido. Já no ano de 1912, Mekitar Asturian (pai de Adilson e avô de Marcos Jovino e Alan), diante da crescente violência, partiu de Mush, na Anatólia, no Império Turco Otomano, com o intuito de encontrar seu irmão Marcos. A fuga desordenada diante do cenário de extermínio fez com a família se separasse e nunca mais voltasse a se encontrar. Mekitar, que era órfão de pai, viu sua mãe buscar refúgio na Rússia, acompanhada de um neto. Já sua irmã e cunhado partiram para a França. Para piorar, Mekitar, ao chegar ao Brasil, acabou não reencontrando o irmão, Marcos - que por um percalço do destino havia voltado à sua terra natal e, depois, partido aos EUA. Essa situação fez com que os irmãos nunca mais voltassem a se ver.

...Mesmo assim, Mekitar decidiu ficar no Brasil?

Sim. Ele permaneceu com seu tio Martins, na localidade de Capoerê. Casou-se com Ernestina Rigotti (descendente de italianos) e teve nove filhos, dos quais apenas o filho mais novo, Adilson, de 79 anos, está vivo. Devido a sua profissão, Mekitar foi transferido em 1937 para Viadutos, então 10º Distrito de Erechim, a fim de ocupar o cargo de subprefeito e subdelegado. Mekitar faleceu em 22 de julho de 1986, com 93 anos de idade.

A família Asturian, hoje, é constituída de quantos membros? Quantos vivem na região? Aliás, como é a relação de vocês com os outros armênios que vivem no RS ou no Brasil?

É difícil precisar a quantidade de familiares que possuem alguma ascendência. Atualmente, apenas o filho mais jovem de Mekitar está vivo (Adilson Asturian). Porém, há vários netos, bisnetos, tataranetos e afins. A maior parte da família se encontra no Rio Grande do Sul, mas também em Santa Catarina e Paraná. Existem, porém, poucas famílias armênias no RS. Na região norte do Estado, acreditamos ser a única. A maior parte da comunidade no Brasil se encontra em São Paulo. Em regra, nossas relações com outros armênios se limitam às redes sociais.

Vocês (Adilson, Alan e Marcos) já se sentiram discriminados em razão de sua descendência? Sabem de algum tipo de discriminação que Mekitar possa ter sofrido?

O Brasil é um país heterogêneo. Para exemplificar, nós (Alan e Marcos) temos ascendência armênia e italiana por parte de pai e alemã por parte de mãe. Não vivemos, até agora, nenhum episódio discriminatório devido à origem. Nosso pai, Adilson, também não lembra de nada neste sentido. Já nosso avô sofria uma espécie de ‘injustiça’. Por desconhecimento, as pessoas classificavam qualquer imigrante do Império Turco Otomano (armênios, búlgaros, sírios, libaneses,) como ‘turco’. Então, por ironia, nosso avô que teve a família dissolvida,  compatriotas e amigos assassinados pelos turcos, era chamado de “Turco”. A situação causava certo desconforto...

Que sentimento vocês nutrem em relação à Armênia?

Pertencimento. Os armênios e seus descendentes estão ligados por fazerem parte da diáspora, formando uma identidade cultural comum.

Em 2015, o Senado brasileiro aprovou moção de solidariedade ao povo armênio que reconhecia o genocídio, pressionando o governo federal a fazer o mesmo.  Considerando que temos cerca de 40 mil armênios ou descendentes vivendo no país, qual é a importância desse reconhecimento pelo executivo?

O que ocorreu com os armênios foi uma política de aniquilação étnica, cultural e religiosa de minorias conduzida por ideais ultranacionalistas: o panturquismo. 106 anos é preciso reconhecer que há interesses geopolíticos entre Brasil e Turquia. Contudo, a omissão consciente é conivência com a política negacionista turca. O Brasil, em virtude da sua identidade plural resultante dos numerosos movimentos imigratórios, deveria reconhecer o genocídio, que soaria como uma reafirmação de compromisso com a defesa dos direitos humanos fundamentais e o respeito para com a comunidade armênia brasileira e internacional.

A Turquia nega o uso do termo 'genocídio', sendo que o código penal do país prevê pena de até 2 anos de prisão a quem insultar "a qualidade do ser turco". Para vocês, quão dolorido é esse tipo de negacionismo - e quais podem ser as consequências?

Negar o passado, esconder os fatos pode resultar na repetição dos mesmos erros. Atualmente, movimentos extremistas ganham força, e desconhecer a dor e o sofrimento que as mais variadas perseguições causam é dar passos largos a tragédias futuras. O Estado Turco, seu governo e a parte da população que nega o extermínio sistemático e seletivo que perpetraram contra os armênios, perpetua o genocídio - e assim continuam com as “mãos sujas de sangue” inocente de mais de 1,5 milhão de homens, mulheres, crianças que foram assassinados das mais variadas formas, enforcados, decapitados, crucificados, queimados vivos, a tiros, por inanição (famintos e sedentos) em marchas forçadas pelo deserto.

Saiba mais

O que aconteceu?

No início do século 20, os cristãos armênios eram uma entre várias comunidades religiosas minoritárias dentro do Império Otomano. O império, comandado pelos muçulmanos, incluía diversos grupos étnicos e religiosos diferentes. Em 1908, um movimento com discurso nacionalista, encabeçado por oficiais das Forças Armadas chamados de "Jovens Turcos", tomou o poder prometendo modernizar e fortalecer o império.

No dia 24 de abril de 1915, mais de 200 intelectuais e líderes comunitários armênios foram presos pelo governo otomano e posteriormente executados. Essa data é marcada como o início do que a comunidade armênia considera o genocídio, apesar de outros massacres contra essa população terem ocorrido na região deste os anos 1890. No período que se seguiu à prisão dos intelectuais, centenas de milhares de homens, mulheres e crianças armênias foram mortos. Muitos morreram massacrados em suas cidades, de exaustão, fome e sede em marchas forçadas ao longo de regiões desérticas no que hoje é a Síria e em campos de concentração. As propriedades dos armênios foram confiscadas e oferecidas a muçulmanos, e muitos órfãos foram adotados por famílias muçulmanas.

Você sabia?

A palavra genocídio vem do grego genos – tribo, raça; e do latim cide – matar.



Todas imagens
  • Autor: Salus Loch / Jornal Bom Dia
  • Imagens: Divulgação

Todo o conteúdo desta coluna é de total responsabilidade de seu autor(a)/publicador(a)!