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A língua é viva e, por ser viva, não aceita arbitrariedades.

Data da Noticia 29/01/2021
Sobre mudança linguística e o chamado "gênero neutro".

Há alguns meses aflorou o debate sobre uma suposta condição sexista da Língua Portuguesa, impulsionado pela proposta de implantação do chamado "gênero neutro" na gramática de nossa língua materna. Demorei para expor minha opinião pois considero imprudente fazê-lo no momento mais acalorado da discussão (a explosão da polêmica).

Pois bem, para discutir o mérito da questão, é preciso ter ciência de que línguas mudam com o tempo, e entender como se dá esse processo de transformação. Toda mudança linguística, num primeiro momento, é apenas uma forma variante competindo com outra forma equivalente (até então estabelecida como padrão). Caso o uso da nova forma supere o uso da anterior, aquela tende a se tornar padrão, em detrimento desta. Cada pequeno processo de mudança leva décadas ou mesmo séculos para ocorrer. A longo prazo, no entanto, a diferença é significativa. Por exemplo, se analisarmos um registro gráfico do português em uso no período colonial, é possível que tenhamos dificuldade para compreender certas palavras e expressões, tamanha a mudança perpetuada ao longo do tempo.

Tomemos como exemplo a palavra "você". No período colonial surgiu, entre os nobres, a expressão "vossa mercê", que originalmente era um pronome de tratamento. Ocorre que a expressão teve adesão das classes populares e, depois de várias formas intermediárias, chegou ao "você / vocês" que tanto usamos hoje. A questão é que, de pronome de tratamento, a palavra passou a competir com as formas "tu" e "vós" para a expressão de p2 e p5 (segunda pessoa do singular e segunda pessoa do plural, respectivamente). Hoje, "vós" já desapareceu no uso cotidiano e "tu" segue no mesmo sentido.

Com isso, percebemos que toda mudança linguística é determinada única e exclusivamente pelo uso coletivo. Qualquer tentativa de fixar uma nova forma ou preservar uma ultrapassada à força é totalmente inútil. É neste fato que baseio minha argumentação a respeito do "gênero neutro". Não entrarei em questões políticas ou ideológicas. Afinal, a discussão é, sobretudo, linguística. E algo muito importante que a Sociolinguística nos ensina é que língua nenhuma muda por decreto.

Além disso, o fato de a Língua Portuguesa apresentar diferenciação de gênero em substantivos, adjetivos, artigos e pronomes, enquanto outras línguas não a tem, nada tem a ver com uma suposta cultura sexista ou preconceituosa, e sim com as raízes da própria língua. A questão de "gênero" na língua não possui nenhuma relação com "gênero" no sentido de identidade humana.

 A língua é viva e, por ser viva, não aceita arbitrariedades. Ainda por ser viva, segue seu curso como um rio, sem que seja possível retardar ou acelerar a corrente.



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  • Autor: Gerson Dickel
  • Imagens: Ilustrativa

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