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Ecovila Dom José: a transformação socioambiental mora aqui

Data da Noticia 03/07/2018
Com base nos princípios da Permacultura, um espaço sustentável para a experiência de práticas ecológicas está sendo construído no interior de Alpestre

Localizada a cerca de 18 quilômetros do Centro de Alpestre – cidade com pouco mais de nove mil habitantes, no Norte do Rio Grande do Sul – a pequena comunidade rural de Dom José chegou a quase ser literalmente extinta, especialmente, do mapa populacional. Com a instalação da Usina Foz do Chapecó sobre o rio Uruguai, dezenas de famílias tiveram que sair de suas propriedades e muitas outras também acabaram se deslocando para zonas urbanas.

“Quando chegamos aqui, em 2015, tudo estava abandonado, a vila inteira, por causa do impacto da barragem. A comunidade estava com o ‘tecido’ social rompido, pois muita gente tinha ido embora, era uma cena de guerra, com muitas casas vazias, formando uma vila fantasma. Foi então, que eu e meu irmão, Clairton da Silva, aceitamos o desafio de que com a Permacultura seríamos capazes de restaurar o lado social, cultural e econômico, e transformar essa comunidade em um dos melhores lugares do Brasil e do mundo”, revela o designer em Permacultura, Neimar Marcos da Silva.

 

Marcos Ninguém – designer em Permacultura

Inspirados em episódios como o de Mariana, em Minas Gerais, e em outros onde comunidades passaram por grandes impactos ambientais causados por barragens, os irmãos viram em Dom José a chance de construírem um projeto inovador e ao mesmo tempo de reconstrução social. “Desde que estamos aqui, há um pouco mais de três anos, oito famílias já retornaram para Dom José. Este barzinho que agora tem toda esta estrutura, era apenas um cantinho e agora não tem nem casas para alugar nesta área. Hoje aqui é movimentado, nos tornamos uma das comunidades mais alegres de Alpestre”, afirma Marcos Ninguém, como também é conhecido Neimar.

Permacultura O nome, talvez, ainda é pouco conhecido, mas os significados e sentidos desta palavra, em sua prática, já foram e estão sendo responsáveis pela transformação da comunidade de Dom José. “O termo é a união de duas palavras, que inicialmente era agricultura permanente e depois passou a ser cultura da permanência, como permanecemos mais tempo nesse planeta com uma convivência harmônica com o meio ambiente, extraindo o que nós necessitamos e de uma maneira que não prejudique as futuras gerações, a sustentabilidade dos sistemas, os ciclos energéticos da natureza. A Permacultura surgiu na década de 1970, como uma resposta à cultura do agronegócio e dos agrotóxicos, e com a proposta de produzir com outras técnicas. Depois ela evoluiu e passou para a dimensão da arquitetura e produção de alimentos, tomando dimensões maiores”, explica Marcos Ninguém. Unipermacultura Com o objetivo de difundir estes ideais, foi criada na Vila Dom José uma universidade, a Unipermacultura. A instituição oferece diversos cursos na modalidade EAD, mas com vivências no local, voltados para o bem-viver sustentável, como diplomado em Permacultura, Bioconstrução e Ecovila. Por meio de parcerias com outras universidades, a intenção é transformar o lugar em um polo de educação sustentável, onde a Permacultura pode ser vivenciada na prática.

 

Estúdio onde são gravadas as videoaulas da Unipermacultura

Estrutura da universidade Unipermacultura

Tabaco orgânico produzido na comunidade

A Ecovila Dom José Com base nos princípios de design e ética da Permacultura, há cerca de dois anos e meio está em execução na comunidade o projeto da Ecovila Dom José, um espaço sustentável para a experiência de práticas ecológicas. “A ecovila é um assentamento humano sustentável, que pode variar de 20 até duas mil pessoas, que moram dentro de uma mesma propriedade, em casas individuais e com áreas comuns, e essas pessoas partilham de um propósito fundamental, que é o propósito da ecologia, do cuidado da terra, do meio ambiente, da sustentabilidade, mas ela também pode ter um cunho espiritual, político, religioso. No caso da nossa ecovila, a nossa ‘cola’, o que faz com que as nossas pessoas se unam, está muito relacionável com a Permacultura, uma ecovila laica, onde tem pessoas de várias religiões e com várias orientações políticas, mas a nossa unidade está relacionada com a preservação do meio ambiente”, diz o permacultor.

No total, a Ecovila Dom José compreende uma área de quatro hectares, sendo que destes, 1,5 hectare foi destinado para uma agrofloresta, com mais de 500 árvores frutíferas. Na outra parte serão construídas 25 casas ecológicas, além de uma horta orgânica, uma cozinha comunitária, um salão para danças, oficinas, ioga, eventos em geral, uma quadra para esportes e um playground para as crianças. “No momento estamos construindo a nossa sexta casa. São residências padrão, todas com o mesmo espaço, construídas de terra da própria fossa. Inicialmente começamos com a técnica superadobe, de um arquiteto iraniano, mas em virtude de rachaduras que foram aparecendo em razão da forte umidade aqui da região, mudamos para a técnica da taipa de pilão, que consiste em comprimir a terra em formas de madeira. Mas são casas muito resistentes e elas trabalham com a linha da arquitetura bioclimática, então aqui no frio ela esquenta e no verão ela esfria pela largura da parede”, detalha o designer.

 

Construção da sexta casa da ecovila 

De acordo com Marcos Ninguém, atualmente cada casa da ecovila custa em média R$ 50 mil. “Elas são pagas em prestações de R$ 2 mil, a cada cinco meses, e a cada cinco meses sorteamos uma casa entre os associados, que já podem vir morar aqui. É uma forma de consórcio entre eles. Cada um se associa adquirindo uma casa, mas a terra é coletiva e a escritura dela fica no nome da associação. No momento oferecemos duas vagas, para fila de espera, em caso de desistência de algum associado”, explica. Opção de vida mais simples A psicóloga e pós-graduada em acupuntura chinesa, Karla Ariani, de São Paulo (SP), conheceu os irmãos Silva em setembro do ano passado pela internet e decidiu viajar até o Sul do país para conhecer o projeto. "Ao chegar aqui me apaixonei e decidi que este seria o lugar onde eu iria morar. Vendi tudo em SP, me associei na Ecovila Dom José e em fevereiro deste ano eu já estava aqui de ‘mala e cuia’. Ainda estou em um momento de transição, em um pé no urbano e começando a fazer essa transição para o rural, por isso ainda estou residindo em São Carlos (SC), mas minha casa está sendo construída e acredito que em dois meses estarei em definitivo por aqui. Escolhi morar em uma ecovila por achar que essa é uma opção de vida mais simples, viver com menos e sem agredir o meio ambiente, ser recompensado pela natureza e levar isso em troca para a terra”, comenta.

 

Karla Ariani, consorciada da Ecovila Dom José, vinda de São Paulo (SP)

“Viver com menos e sem agredir o meio ambiente, ser recompensado pela natureza e levar isso em troca para a terra”

A maioria dos associados é de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, mas também há pessoas de Santa Catarina, Paraná, Espírito Santo, Rio Grande do Norte e Goiás. “A ecovila é uma habitação coletiva para um bem viver, para uma vida mais saudável, que também é uma resposta à questão da crise da sustentabilidade. Estamos mostrando na prática que dá para gerar renda, turismo, compartilhar novas tecnologias. Temos muito para colaborar com o desenvolvimento sustentável da região do Alto Uruguai e estamos aqui com a proposta de mostrar que é possível desenvolver sem degradar o meio ambiente”, salienta Marcos Ninguém. Para a consorciada da Ecovila Dom José, pedagoga e socióloga, Simone Marcon, de Chapecó (SC), a iniciativa também serve para inspirar as pessoas a executarem o que ela chama de “Permacultura urbana”. “As pessoas precisam conhecer essas possibilidades, que vão simplesmente do cuidar da compostagem, que pode ser feito com aquilo que você consome, na sua alimentação, devolver para a terra os resíduos, fazer hortas, coisas que podem ser feitas dentro de um apartamento”, afirma.

 

Simone Marcon, consorciada da Ecovila Dom José, vinda de Chapecó (SC)

Fossa de bananeiras Outra peculiaridade da ecovila são as fossas ecológicas, construídas pelo sistema de evapotranspiração, também conhecido como ‘fossa de bananeiras’. “Elas não contaminam o lençol freático e ao mesmo tempo dão as bananeiras, que fazem a última fase. É um filtro biológico que faz o tratamento do esgoto e as frutas podem ser consumidas sem problema nenhum”, explica. Além das casas da ecovila, as fossas ecológicas já são comuns na comunidade de Dom José, sendo implantadas em residências de alguns moradores. Além disso, é uma das técnicas ensinadas em escolas e grupos onde a Unipermacultura se faz presente.

 

As fossas ecológicas foram construídas pelo sistema de evapotranspiração

“Faça você mesmo” Além dos princípios sustentáveis, uma das filosofias da ecovila é do “Faça você mesmo”, onde as pessoas buscam a sua emancipação humana. “Nós vivemos em uma sociedade com muito analfabetismo funcional, em que as pessoas não estão mais educadas a fazer as suas próprias coisas e resolver seus próprios problemas. Defendemos que a sociedade hoje tem que se pautar na noção de um conhecimento que seja para a vida e a favor da vida e para gerar vida, então a Permacultura traz muito essa ideia do reaproveitamento de materiais, do reaproveitamento dos recursos. É trabalhar na linha da emancipação humana que o Paulo Freire falava, devolver para as pessoas a capacidade de elas tomarem as suas vidas em mãos e a partir disso construírem o destino que querem ter, a realidade que querem construir”, finaliza Marcos Ninguém. 

 

  Projeto mostra como a Ecovila Dom José ficará quando estiver finalizada

 

Reportagem e fotos: Gustavo Menegusso e Letícia Waldow Imagens e edição de vídeo: Bruna Bonadeo

 

 

VÍDEOS






Todas imagens
  • Autor: Jornal o Alto Uruguai
  • Imagens: Gustavo Menegusso e Letícia Waldow

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